Relato de quem convive com fibromialgia e dor crônica destaca desafios enfrentados por pessoas cujas limitações nem sempre são percebidas pela sociedade
Neste 21 de setembro, quando o Brasil celebra o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência, a discussão sobre inclusão e acessibilidade ganha novos contornos ao trazer à tona uma realidade muitas vezes invisível: a das pessoas que convivem com deficiências e condições crônicas que não podem ser identificadas apenas pela aparência.
A data, instituída pela Lei nº 11.133/2005, tem como objetivo promover a conscientização sobre os direitos das pessoas com deficiência e estimular reflexões sobre os desafios que ainda dificultam a participação plena e igualitária desse público na sociedade.
O tema ganha ainda mais relevância após a divulgação, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), da segunda edição do estudo “Pessoas com Deficiência e as Desigualdades Sociais no Brasil”, publicado na última sexta-feira (18). O levantamento apresenta indicadores relacionados à educação, trabalho, renda, mobilidade, moradia, participação social e vida familiar, revelando desigualdades que ainda persistem no país.
No entanto, além dos números e estatísticas, especialistas e pessoas que vivenciam essa realidade destacam a importância de compreender aspectos que não aparecem em tabelas ou relatórios.
É o caso do escritor, professor e comunicador Kedson Bruce, que compartilhou sua experiência convivendo com fibromialgia e dor crônica. Segundo ele, uma das maiores dificuldades enfrentadas por pessoas com condições invisíveis é a necessidade constante de explicar e, muitas vezes, comprovar suas limitações.
“Nem toda deficiência está naquilo que se vê. Nem toda dor está naquilo que se mede”, afirma o autor ao refletir sobre a forma como a sociedade costuma associar deficiência apenas a características visíveis.
Para Kedson, a ausência de sinais aparentes não significa ausência de sofrimento ou de limitações. Embora continue trabalhando, estudando, produzindo conteúdo e desenvolvendo projetos, ele destaca que muitas dessas atividades exigem adaptações e um esforço que nem sempre é percebido por quem observa de fora.
Barreiras além das limitações físicas
A reflexão dialoga diretamente com os princípios da Lei Brasileira de Inclusão (LBI), que considera a deficiência como resultado da interação entre impedimentos de longo prazo e as barreiras existentes na sociedade.
Nesse contexto, o debate sobre acessibilidade vai além da construção de rampas, elevadores ou adaptações físicas. Também envolve compreensão, acolhimento e respeito às diferentes condições enfrentadas pelas pessoas.
Segundo a legislação, a garantia de direitos depende não apenas das características individuais, mas também das condições oferecidas para que todos possam estudar, trabalhar, circular e participar da vida social em igualdade de oportunidades.
Para quem convive com doenças crônicas ou deficiências não visíveis, a luta diária muitas vezes inclui enfrentar burocracias, buscar reconhecimento de direitos e lidar com dúvidas ou desconfianças sobre sua condição.
Um olhar mais amplo sobre inclusão
A experiência relatada por Kedson Bruce reforça a necessidade de ampliar a compreensão sobre o conceito de deficiência e sobre as diversas formas pelas quais ela pode se manifestar.
No Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência, a mensagem central é de que a inclusão não deve depender da visibilidade da limitação. A dignidade, o respeito e o acesso aos direitos precisam alcançar também aqueles cujas dificuldades não são imediatamente perceptíveis.
A data serve como convite para que a sociedade reflita não apenas sobre as barreiras físicas existentes, mas também sobre atitudes e julgamentos que podem dificultar a vida de milhões de brasileiros.
Afinal, nem toda deficiência pode ser vista. E ninguém deveria precisar expor sua dor para ter seus direitos reconhecidos.
Serviço
O estudo “Pessoas com Deficiência e as Desigualdades Sociais no Brasil – 2ª edição” está disponível no portal do IBGE e reúne dados atualizados sobre a realidade das pessoas com deficiência no país. Já o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência é celebrado anualmente em 21 de setembro como forma de promover a conscientização e fortalecer a defesa dos direitos desse público.